Beira Meu Amor

A Beira foi o grande amor da minha vida. Recebeu-me com seis anos, em Novembro de 1950 e deixei-a, com a alma em desespero e o coração a sangrar, em 5 de Agosto de 1974. Pelo meio ficaram 24 anos de felicidade. Tive a sorte de estar no lugar certo, na época certa. Fui muito feliz em Moçambique e não me lembro de um dia menos bom. Aos meus pais, irmão, outros familiares, amigos e, principalmente, ao Povo moçambicano, aqui deixo o meu muito obrigado. Manuel Palhares

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sexta-feira, fevereiro 03, 2006

O Congresso


O pavilhão de desportos estava a abarrotar pelas costuras. A barulheira era muita com as pessoas a quererem sobrepor-se à música ambiente. O calor também se fazia sentir porque as pessoas tinham vindo com os seus agasalhos de Outono e lá dentro havia aquecimento. A decoração era garrida com todas as cores a fazerem-se representar conforme a província de Moçambique a que diziam respeito. Estavam representadas todas as comunidades mais significativas.
No soalho do pavilhão, de trás até à frente, tinham-se montado as bancadas para as diferentes delegações. À frente tinha-se montado um palco, com uma bancada para a mesa da assembleia geral, onde tinham assento os pesos pesados de cada delegação que iriam ser os moderadores do debate.
Da ordem de trabalhos constava apenas um ponto: a criação da União das Comunidades de Moçambique, constituida nos seus corpos gerentes, por elementos das diferentes comunidades.
Numa vista de olhos que lancei do cimo das bancadas, vi gente de todas as comunidades:
Lourenço Marques tinha a maior delegação: lá estava gente de Lourenço Marques / Maputo, MGM, MOH, AVM e AAULM. Pude ver que não faltaram o João e a Delagoa15, a Isabel Filipe e o Victor Passos, o Zé Paulo e a Gilda, o Zé Maria Mesquitela com o seu staff de conselheiros de respeito e o Jacinto e a Pitucha;
Da Beira tinham vindo o Jorge Cortez e a Tininha Noronha Marques;
Do Xai-Xai estavam o Orlando Braga e a Odília Leitão;
De Inhambane, que já não tem o nosso saudoso amigo Carlos Gonçalves, vi o Celestino Marrabenta e o Rogério Tutinegra que também representava Maxixe;
De Vila Pery lá estavam o Moura e o Pedro Lemos;
Tete fazia-se representar pela Maria Isabel Antunes;
Quelimane era representada pela Mizé Araújo e pelo Luís Bulha;
De Nampula vieram o Jorge Soares e o Francisco Branquinho;
Porto Amélia estava representada pelo Jaime Gabão e pela Guida Ferreira.
Também por lá passeavam o Ricky, o Diabinho, o Carlos Gil, a Teresac, a Tareca, a Bébé Gouvêa Lemos, o José de Viseu, a Tânia Mesquitela, o Ângelo, a Ana Bela, o Luís Paula Campos, o Carlos Schmidt, o Joca, o Macua da Ilha, o Salbany, o Nani, o Malhanga, a Lomba, o Moreira, o Gonzaga, o Sá, o Fernado Rebelo, o Zinho, o Carlos Araújo, a Meoliv, as manas Encarnação Vieira, a Hambanine, o Midó, o Fernando Marques, a São Percheiro, a São Alves, a Carlinha, as Xanas, a Lena, a Regina, a Ana Maria Morgado, o Luís Pereira, o Manelito, o Canário e o Tó Meneses.
O congresso começou por eleger os elementos da mesa da assembleia geral. Foram eleitos os elementos mais representativos de cada comunidade, tentando contrabalançar a idade com a experiência e participação nos grupos. Assim a mesa ficou constituida pelo Zé Maria do AVM, a Delagoa 15 de L.M., o Victor Passos do MGM, o Zé Paulo do MOH, o Cortez da Beira, o Pedro de Vila Pery, a Isabel de Tete, o Luís Bulha de Quelimane, o Branquinho de Nampula e o Jaime Gabão de Porto Amélia. Como conselheiros e representando os interesses das pequenas comunidades, a Ermelinda, o Ricky, o José de Viseu e o Celestino Marrabenta. Como presidente da mesa da assembleia geral o Magno Antunes.
Deu-se início aos trabalhos. Discursaram elementos de todos os grupos, mesmo daqueles menos representativos. Todos disseram que o seu interesse número um era Moçambique e tudo aquilo que lhe dizia respeito. Posto à votação o único ponto da ordem de trabalhos, foi eleita por aclamação geral, a criação da União das Comunidades de Moçambique, que passou a ter um corpo gerente constituido por um elemento de cada comunidade e um quadro de conselheiros constituido pelos elementos mais experientes.
Tratado que foi o único ponto da ordem de trabalhos e eleitos os quadros da União, resolveu-se logo debater em seguida as linhas de acção e orientação principais da UCM.
Houve concenso que a prioridade principal daqueles que lá fossem passar as suas férias, era o voluntariado e a ajuda material a instituições materno-infantis, vocacionadas sobretudo para crianças orfãs.
Como segunda prioridade, a tentativa, juntamente com missões religiosas e ONG’s, de um esboço para a criação de um banco alimentar contra a fome, de modo a minimizar o flagelo da fome que se está a abater sobre aquele país.
Como terceira prioridade falou-se também no voluntariado na formação de quadros para o ensino primário e secundário.
De repente acordo sobressaltado e suado. Estava a sonhar. Que pena ter acabado o sonho e a utopia. Mas lá que se podia tentar uma coisa assim parecida, lá isso podia. Houvesse para isso vontade e entrega de cada um de nós.
Desculpem se vos macei com este sonho...


Manuel Palhares

Odivelas, 13 de Novembro de 2005.

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