Beira Meu Amor

A Beira foi o grande amor da minha vida. Recebeu-me com seis anos, em Novembro de 1950 e deixei-a, com a alma em desespero e o coração a sangrar, em 5 de Agosto de 1974. Pelo meio ficaram 24 anos de felicidade. Tive a sorte de estar no lugar certo, na época certa. Fui muito feliz em Moçambique e não me lembro de um dia menos bom. Aos meus pais, irmão, outros familiares, amigos e, principalmente, ao Povo moçambicano, aqui deixo o meu muito obrigado. Manuel Palhares

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quinta-feira, fevereiro 02, 2006

As “Ma Mères” Bárbara e Chagas


Só um ano depois de chegar à Beira, com seis anos, é que eu comecei a estudar. Naquela altura entrava-se para a escola com sete anos.
Os meus pais decidiram matricular-me num colégio de religiosas que toda a gente conhecia na Beira, o Colégio Nossa Senhora dos Anjos, vulgo “ Ma Mères” ou “Maméres”.
A directora do colégio era uma jovem e muito bonita “mère” Gabriela(?), de quem se dizia que tinha ido para freira por desgosto de amor.
E foi assim que em Setembro de 1951 eu entrei para a 1ª classe do colégio, tendo como professora a “mère” Bábara.
Foi com ela que aprendi a ler, a escrever, a tabuada e a fazer contas. Só por isso devo-lhe o meu reconhecimento.
O primeiro dia não correu lá muito bem. Cheguei a casa a chorar “baba e ranho” porque estava constipado, tinha-me esquecido do lenço e tudo me correu mal.
Lembro-me de ter por colegas o José Roca, os irmãos Elias e Vito Palha de Sousa, o Duarte... e muitas meninas, a maioria.
Ali aprendi as primeiras letras e números, com a ajuda daquele livro que tinha na capa uma menina e um menino a estudarem: "O Livro Da Primeira Classe". Para além das aulas, tínhamos ginástica com um professor. Também tive aulas de piano com a “mère” Inês(?).
Tive aulas de catecismo para me preparar para a minha primeira comunhão. Recebia muitos santinhos e via filmes sobre a acção missionária em África.
No Natal havia sempre uma festa a que os pais assistiam e onde os alunos mostravam as suas capacidades artísticas: tocando piano, dizendo poesia, dançando ballet ou representando pequenas peças de teatro. Ainda conservo comigo o programa da Festa de Natal de 1952, de onde consta que um tal Manuel Palhares tocou ao piano o “ Soldadinho de Chumbo”.
Na 2ª classe a minha professora foi a “mère” Chagas, uma freira muito boazinha e já com idade avançada. Continuou e aprofundou o trabalho da “mère” Bárbara e foi com ela que aprendi a escrever as primeiras redacções. Muito calma, o seu maior castigo, quando nos portávamos mal, era ficarmos um minuto ou dois virados para a parede num canto da sala.
Nesta época houve uma altura em que eu e o Zé Roca resolvemos tirar uns dias de férias extras. E então, em vez de irmos para o colégio, passámos uns dias a brincar, mesmo ali ao pé, no jardim que havia junto ao colégio, no largo onde mais tarde se construiu o cinema São Jorge. Foram uns dias divertidos a subir e a descer das árvores, a apanhar cigarras, gafanhotos, lagartixas e camaleões. Líamos livros de desenhos animados e falávamos das aventuras que planeávamos fazer, quando já fôssemos muito grandes, aí com uns catorze ou quinze anos. Como éramos muito "espertos", não nos esquecíamos de marcar os deveres para casa que depois, à tarde, fazíamos ao pé das nossas mães e, no dia seguinte, com um lápis vermelho assinalávamos como certos. Tudo correu muito bem por dois ou três dias, até a directora do colégio telefonar para casa do Zé Roca a perguntar se ele estava doente e se sabiam alguma coisa de mim, pois andávamos sempre juntos. Aí, as coisas foram um bocado complicadas com os nossos pais...
E era este pequeno testemunho que aqui queria deixar, como uma simples mas sentida homenagem a quem me ensinou as primeiras letras.


Manuel Palhares

Odivelas, 31 de Outubro de 2005.


* Gravuras publicadas por José Maria Mesquitela em "Arquivo Vivo de Moçambique".

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Exmo sr
Manuel Palhares

A pedido da minha tia Pilar,comecei a fazer uma pesquisa sobre os lugares de referência em África, que marcaram a sua vida. Pois meu caro amigo, devo informá-lo que a Mere Gabriela directora do colégio onde estudou na Beira, é a minha tia Maria del Pilar. Hoje com 89 anos é ainda uma pessoa no pleno uso das suas faculdades, e muito saudosa dos anos maravilhosos que passou em`África ( Beira até 1961, Lourenço Marques até 1967 ).Como comecei apenas agora a fazer a solicitada pesquisa que referi, ainda não sei o que vou encontrar. Devo no entanto informá-lo que imprimi algumas páginas do seu blog para mostrar à minha tia, que desde já lhe digo ficou um pouco emocionada. É com o maior prazer que deixo o meu contacto , para que caso esteja interessado, contactar posteriormente a minha tia (Mere Gabriela ) ou Maria del Pilar Sá e Mello.
Sem outro assunto e com os mais respeitosos cumprimentos.
Luis Sá e Mello
tel 911929464
luis-mello@clix.pt

terça-feira, fevereiro 03, 2009 1:22:00 da tarde  
Blogger Manuel Palhares said...

Meu caro sr. Luís Sá e Mello,

Como já lhe disse no telefonema desta tarde, deu-me uma das maiores alegrias da minha vida: saber que ainda é viva e que está de boa saúde a minha querida Mère Gabriela, directora do Colégio Nossa Senhora dos Anjos que frequentei na cidade da Beira em Moçambique.
A emoção foi muita e por me a ter proporcionado, o meu muito obrigado.
Conforme combinámos fico, ansioso, a aguardar notícias.
Atentamente e ao seu dispor,

Manuel Palhares

quarta-feira, fevereiro 04, 2009 9:48:00 da tarde  

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