Beira Meu Amor

A Beira foi o grande amor da minha vida. Recebeu-me com seis anos, em Novembro de 1950 e deixei-a, com a alma em desespero e o coração a sangrar, em 5 de Agosto de 1974. Pelo meio ficaram 24 anos de felicidade. Tive a sorte de estar no lugar certo, na época certa. Fui muito feliz em Moçambique e não me lembro de um dia menos bom. Aos meus pais, irmão, outros familiares, amigos e, principalmente, ao Povo moçambicano, aqui deixo o meu muito obrigado. Manuel Palhares

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terça-feira, janeiro 31, 2006

Os meus filhos, eu e a Internet



Faz hoje um ano que aderi à internet. Cá em casa já havia beepers, telemóveis e computadores para os meus filhos. Mas internet não. Eu opunha-me obstinadamente porque se com o que já havia, eles perdiam muito tempo, estão a imaginar o que seria com essa tal de net. E eu resistia e lutava contra a mulher e os filhos: net nem pensar! Pois! Por que razão os pais fazem estas afirmações extremistas, radicais e depois... Pronto, está dito, faz hoje um ano que vieram ligar a net cá em casa.
Ao princípio fiz a vida negra ao “inimigo que me tinha vencido”. Então nos dois primeiros meses, nem queiram saber. Quando chegaram as primeiras facturas com o dobro do débito contratado, isso é que foi o bom e o feio. Coitados dos meus filhos e da minha mulher também, por ter apoiado a iniciativa. Mas... quem pouco sabe “fala muito e pouco acerta”.
Publicitando eu a tudo o que é família e amigos, que afinal eu tinha razão, que estava à vista o resultado, blá, blá, blá... o meu irmão, que é um “calmo controlado”, cheio de pena dos sobrinhos e da cunhada, apareceu-me cá em casa com um genro que é programador. O programador, genro do meu irmão, como é óbvio, é o marido da sua filha, a minha sobrinha. Ele, o programador, é um rapaz calmo, bem disposto e brincalhão. Com uma paciência de santo ouviu-me contar as minhas queixas. Senta-se ao computador, limpa aqui, limpa ali, elimina aqui, elimina ali, instala isto e mais aquilo, e descobre que para além dos “carregamentos para baixo” – downloads – que realmente tínhamos feito, sempre que ligávamos a net, mesmo que não visitássemos nenhum outro sítio, havia sempre um “sítio residente” – home page – que aparecia sempre que lá íamos e que estava o dia todo a alimentar-se de kilobytes, megabytes, gigabytes. Estava descoberto o porquê do excesso de consumo, que ele prontamente eliminou.
Coitados dos meus filhos que juravam a pés juntos que não tinham feito muitos downloads. E a figura que eu fiz com os telefonemas que os obriguei a fazer para o servidor e os e-mails que os obriguei a enviar?! Até uma grelha lhes disse para fazerem para anotarem e controlarem os consumos diários. Para, por fim, o servidor nos vir dizer que efectivamente tínhamos gasto o que tinha sido facturado!
Estão a ver a triste figura que eu fiz, não estão? Depois, como já não podia alegar excesso de consumo, refilava com as horas que perdiam na net a cansarem os olhos, com as horas a que se deitavam, mandava-os desinstalar o modem a partir das onze da noite e por aí fora. Nesta altura sei que já despertei em vós instintos assassinos e muitos já desejaram que a minha cabeça fosse degolada, que alguém me envenenasse a comida, enfim, que eu morresse de várias maneiras e com o máximo de sofrimento possível. É natural! É natural! Mas tenho que contar toda a verdade.
Ao princípio, quando comecei a consultar a net, olhava para “aquilo” desconfiado, com a arrogância e altivez do ignorante. Dizia mal. Afinal não era bem o que propagandeavam. Está bem, concedia eu, tínhamos acesso a bastante informação, mas só isso. As enciclopédias que cá por casa havia, antes da net, também tinham essa informação. E depois?! E depois?!
A minha filha, que já é uma mulher, perante esta atitude, recusou-se determinantemente a dialogar comigo sobre este assunto. A grande vítima foi e ainda hoje é o meu filho. Com o seu metro e oitenta de altura, os seus dezanove anos e uma inteligência analítica fulminante – pai é suspeito, atenção! – todos os dias lá me foi ensinando um bocadinho do muito que sabe. Chamei-o e chamo-o vezes sem fim, interrompo-lhe leituras, filmes e jogos de futebol e quando ele está a tentar resolver os problemas que às vezes eu crio e me pergunta – “Pai, o que fizeste? O que andaste para aqui a fazer?” – eu, arrogante, prepotente e cobarde, respondo-lhe: “Eu nada, tu é que não percebes nada disto!”. Agora os que já me tinham desejado morto, triturado e entregue às feras, fazem várias rezas, daquelas de magia negra, para encomendarem a minha alma ao diabo.
Burro velho não aprende línguas, mas grão a grão lá fui aprendendo onde é que estava o quê, porque ainda por cima o teclado do computador que está ligado à net é inglês e os caracteres que desejamos nem sempre são aqueles que estão representados nas teclas. Aprendi a seleccionar, copiar, colar, transportar, guardar, adicionar fotografias e outros anexos, em suma, essas coisas elementares. Aos poucos, nos sítios das várias comunidades de ex-residentes moçambicanos, fui colocando, a medo, uma ou outra opinião, emitindo juízos de valor que não interessavam a ninguém, copiando e “pastando” poesias de autores portugueses, anedotas, e-cards, gifs, dando os parabéns e os pêsames a quem não conhecia, em conclusão, imitava o que via a maioria fazer. Aprendi também a mandar e-mails e a corresponder-me com outros internautas. Até que, acerca de dois meses, resolvi começar a contar umas histórias como esta, que concerteza poucos lerão e a quase ninguém interessará. Mas vou-me divertindo imenso e passando o tempo. Pelo Messenger e pelo Skype falo com amigos que estão na China, na Índia, no Brasil, nos Estados Unidos, no Canadá e na Europa e farto-me de matar saudades e passar com eles bons momentos. Nos chats, principalmente num que visito mais, rio tanto, tanto, que tenho que interromper a minha participação por já não aguentar tanto riso, devido aos trocadilhos (nonsense) que lá se escrevem e que continuam depois nas discussões que abrimos ao longo do dia seguinte, para comentarmos o que se disse na noite anterior. Reencontrei pessoas de quem não tinha notícias há mais de trinta anos e com as quais já me juntei fisicamente em alegres encontros de celebração, por vezes também muito comoventes.
Aqui em casa passei a ser o maior utilizador da net, o seu maior consumidor. Agora é o meu filho quem me alerta para os consumos e sou eu que por vezes ultrapasso as cotas mensais contratadas. De certo que o que aqui conto não é novidade para a maioria de vós, por já terem passado por situações semelhantes. Mas eu é que não ficava bem com a minha consciência se não viesse aqui pedir desculpa aos meus queridos filhos. Agradecer-lhes a paciência, agradecer-lhes o que me ensinaram, agradecer-lhes o mundo novo e global que me mostraram. E que tantas horas de prazer me têm proporcionado. Ao meu filho em particular, o meu revisor de texto, o meu primeiro crítico e o meu editor, deixo aqui um beijo.


Manuel Palhares

Odivelas, 27 de Setembro de 2005.

* Imagem retirada de: http://exclamacao.weblogger.terra.com.br/200507_exclamacao_arquivo.htm .

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