Beira Meu Amor

A Beira foi o grande amor da minha vida. Recebeu-me com seis anos, em Novembro de 1950 e deixei-a, com a alma em desespero e o coração a sangrar, em 5 de Agosto de 1974. Pelo meio ficaram 24 anos de felicidade. Tive a sorte de estar no lugar certo, na época certa. Fui muito feliz em Moçambique e não me lembro de um dia menos bom. Aos meus pais, irmão, outros familiares, amigos e, principalmente, ao Povo moçambicano, aqui deixo o meu muito obrigado. Manuel Palhares

Archives
A minha fotografia
Nome:
Localização: Odivelas, Lisboa, Portugal

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Por aí...


- Boa tarde! Dá-me liçença? – pedi eu à pessoa que me impedia, no exterior, o acesso à porta da Repartição de Finanças. A pessoa que era alta e de cabelos muito compridos virou-se para mim, lentamente, e pude reparar que para além dos cabelos compridos, também usava umas enormes barbas de um branco amarelado. Numa rápida observação pude verificar que estava perante aquilo a que, à primeira vista, me pareceu um excluido da sociedade, um sem abrigo. Observei que por trás dele estavam uns sacos de plástico de supermercado e nada mais. Trazia vestida uma longa gabardine de cor indefinida, entre o cinzento e o castanho escuro, abotoada à frente.
- Está com muita pressa? Também comprou o passeio público? – perguntou-me com uns olhos vazios, onde não se liam nenhum sinal de emoção – Verifiquei que não valia a pena argumentar e esperei que ele se afastasse e me deixasse entrar. Eu estava com alguma pressa porque estava quase na hora de fechar e era o último dia para pagar uma determinada contribuição.
Ao regressar de novo à rua, reparo que a pessoa que eu pensava ser um sem abrigo, se tinha afastado para o fundo da fachada do edifício e sentado em cima de uns cartões, com alguns sacos de plástico à sua volta. Tinha-me ficado no ouvido aquela pergunta – “Também comprou o passeio?” – que não me irritou, mas alertou para a ironia com que foi feita. Hesitei em me dirigir a ele porque sei que estas pessoas não são dadas a muitas falas e perguntas. Mas o impulso foi mais forte que a razão e sem saber nem bem nem mal o que ia fazer, fui falar com ele.
- O Senhor desculpe! – disse eu. Ele olhou para mim e interrogou- me:
- Também o estou a incomodar aqui? Olhe, vai ter que ter paciência porque estou muito cansado e com fraqueza e daqui não saio. Só se me pegarem ao colo, levarem para o cimitério e enterrarem vivo. Assim como assim, eu o que estou mesmo é à espera da morte. Mas como nunca tive tendências suicidas têm que esperar que ela me venha buscar. – Eu estava incomodadíssimo e mil vezes arrependido de me ter dirigido a ele. Por que motivo, mais uma vez, não dei ouvidos à minha razão que nestas coisas é tão sábia e cobardemente me aconselha a fugir destas situações embaraçosas?!
Eu não sou perfeito, estou cheio de defeitos e mesmo que me sobrassem ainda muitos anos de vida – o que não acredito ser o caso – para a penitência dos meus pecados, eles não eram suficientes para me penitenciar por ter passado parte da minha vida a olhar para o lado oposto da miséria e da fome que sempre vi por toda a parte. Mas, se há uma coisa em que eu ganho à minha razão, é em teimosia. Eu não sou inteligente, mas sou deveras persistente na minha teimosia, o que me tem valido amargos de boca em muitas circunstâncias, mas me deixa com aquela, talvez falsa, noção de liberdade.
- Não, não me está a incomodar nada, eu há pouco é que estava com receio de já não apanhar os serviços abertos. Desculpe se o aborreci.
- Não me aborreceu nada. Mas sabe, já estou farto de pedir desculpa por existir e de ocupar espaço na via pública. De ser olhado como um replente leproso putrefacto que pode infectar tudo e todos. Eu gosto de olhar as pessoas nos olhos, para lhes roubar um pouco da vida que já não se vê nos meus. Nesse aspecto sou um pouco vampiro da vida e emoções que vejo nos olhos dos outros. Mas não tenho remorços disso. É o preço que têm que pagar por insistirem em viver nesta sociedade egoísta e hipócrita. Dão umas esmolas para comprarem boa consciência, mas não resolvem o assunto porque insistem neste consumismo desenfreado e cavam todos os dias ainda mais as diferenças. Este sistema de sociedade já faliu e é só deixarem de dar, todos os meses, balões de oxigénio ao vosso sistema se segurança social e não há reformas nem subsídios de desemprego para ninguém. Aí é que vai ser um sarilho. Os que são como eu vamos a passar a ser a maioria e vós, os outros, vão-se aguentar enquanto não esgotarem as vossas poupanças. Aliás, se não estivessemos na zona euro, se pudessemos desvalorizar a moeda e mexer na taxa de juros, já há muito que tínhamos estoirado e este país era um enorme asilo.
- Mas o senhor a falar dessa maneira, vê-se que tem instrução, que tem cultura. Como foi possível chegar a esta condição?
- Olhe, podia estar aqui a dar-lhe muitas explicações para contornar o asunto, mas digo-lhe apenas que me antecipei ao que vai acontecer a muitos de vós.
- O senhor não vai querer que eu acredite que o país vai passar a viver na rua, só porque algumas pessoas tiveram os seus azares e encontram-se, infelizmente, numa situação como a sua?!
- Eu não quero que acredite em nada. Mas pensa que os sem abrigo são só os que vivem na rua como eu? Não, os sem abrigo são todos aqueles que vivem com reformas inferiores ao salário mínimo e que fazem um esforço enorme para fingirem que são dignos, mas que são tratados com a groceria de um país que deixou de respeitar os seus velhos. Eu ao menos não perco energias.
- O senhor permite-me que eu o ajude com qualquer coisa? Que lhe pague o almoço e o jantar de Natal num restaurante? – perguntei eu.
- Natal, não sei o que é, pois tenho todos os dias fome. E quanto a pagar-me as refeições do próximo dia vinte e cinco num retaurante, não vale a pena estar-se a incomodar, pois não há nenhum restaurante que me deixe lá entrar com este aspecto.


Manuel Palhares

Odivelas, 9 de Dezembro de 2005.


* Image of homelessness from the Italian blog Moving & Learning.

/body>