Beira Meu Amor

A Beira foi o grande amor da minha vida. Recebeu-me com seis anos, em Novembro de 1950 e deixei-a, com a alma em desespero e o coração a sangrar, em 5 de Agosto de 1974. Pelo meio ficaram 24 anos de felicidade. Tive a sorte de estar no lugar certo, na época certa. Fui muito feliz em Moçambique e não me lembro de um dia menos bom. Aos meus pais, irmão, outros familiares, amigos e, principalmente, ao Povo moçambicano, aqui deixo o meu muito obrigado. Manuel Palhares

Archives
A minha fotografia
Nome:
Localização: Odivelas, Lisboa, Portugal

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Natal Virtual



Estamos todos num salão de festas enorme. Daqueles que foram feitos para receber convidados de casamentos reais ou de filhos de presidentes da república no activo. O salão está decorado com motivos alusivos ao Natal e Fim do Ano que se aproximam. A luz envolvente é indirecta sem ferir os olhos. Somos de facto muitos. O barulho também. A música ambiente é suave, envolvente e relaxante. O ambiente é de festa. Estamos no Natal. Num natal que quisemos comemorar em conjunto. Todos. Os de várias gerações: os mais e os menos novos. Estava na altura de nos reunirmos para nos conhecermos fisicamente e esta altura do ano era a ideal.
Sim, porque muitos de nós já nos conhecemos. Já nos conhecemos por fotografia. Já temos trocado mensagens nas diferentes comunidades por onde navegamos e correspondido por e-mail. Já discutímos e compartilhámos ideias e até já falámos, em tempo real, pelo MSN-Messenger ou pelo Skype. Já nos acompanhámos uns aos outros na alegria do nascimento de um filho, sobrinho ou neto, ou na tristeza da partida de um familiar ou de um amigo. Colectivamente, já nos rimos em vários chats. Já apreciámos a prosa, a poesia, os blogs e até os livros que alguns vão publicando. Já temos discutido, com mais ou menos calor – mas com que calor por vezes – assuntos dos mais variados, levantado grandes polémicas, cada um esgrimindo as suas ideias e defendendo como sabe e pode os seus pontos de vista. Mas nunca tínhamos estado, assim, fisicamente, no mesmo lugar, na presença uns dos outros. O nosso conhecimento e relacionamento era, até hoje, apenas aquele que é permitido aos que navegam na net, aos internautas: virtual.
Cruzamo-nos uns com os outros, miramo-nos de alto a baixo, sem pudor nem cerimónias, olhamo-nos nos olhos, à procura de um sinal que nos dê uma pista de quem será aquela pessoa que está a passar por nós e todos trazemos nos lábios um sorriso de delicadeza, de convite à paz, à boa disposição, à solidariedade, à fraternidade.
O salão, enorme como já disse, tem uma imensidade de mesas redondas, onde estamos agrupados conforme a região da nação de onde éramos oriundos. Todos, ou quase todos, temos bilhete de identidade e passaporte portugueses, mas não é este o país a que pertence a nossa alma. Somos um pouco ciganos, somos portugueses sem pátria. Ao fundo do salão há um palco, onde amigos, nossos conhecidos desde a infância e adolescência, tocam músicas que nos fazem recordar um passado comum e alegram o nosso coração. Os grupos que se formam a toda a volta do salão são numerosos, os flashes das máquinas fotográficas não param de disparar. Todos se querem fotografar na companhia de amigos, já conhecidos por serem da mesma região e idade, ou por, finalmente, terem encontrado o amigo que até àquela altura era apenas virtual.
- Amigos! Amigos! Pedia um pouco de silêncio e a vossa atenção, por favor. – Um homem de cabelos brancos, em cima do palco, dirigia-se a nós de microfone na mão.
- Certamente que a maioria não me conhece. Eu sou o M.A. , o M. Sou eu um dos que vos “dá” música, daquela que ouvíamos lá na terra que estamos aqui hoje a homenagear com esta nossa reunião. – a salva de palmas que se ouve é estrondosa. -Bem, sou eu e, hoje, a nossa banda residente, conduzida pelo nosso conhecidíssimo “maestro” G.. – outra salva de palmas enorme. - Pois, meus amigos, estamos todos de parabéns, por termos levado avante esta iniciativa que finalmente hoje passa a ser uma realidade. Apesar de todas as nossas divergências, ao longo do tempo, é com uma felicidade indescritível que olho para estas centenas de amigos aqui reunidos. – a ovação é de novo ruidosa e imensa. - Esperamos, todos, que hoje seja uma noite única, para recordarmos até ao fim das nossas vidas. Para não vos maçar muito, porque hoje só queremos alegrias, vou apenas dar as boas-vindas às diferentes províncias aqui representadas, nomeando-as. Ao saudar cada uma das províncias, estou também a saudar, como é óbvio, todas as suas cidades, vilas e lugares, aqui representados por vós, assim como todas as suas comunidades cibernéticas que foram o alicerce para que este encontro se tornasse nesta realidade. – muitos aplausos de novo se fazem ouvir.
- Peço ao maestro um pequeno rufar de tambor e uma salva no prato grande da bateria, antecedendo o nome de cada província. Então aqui vai: Boa noite Maputo! ; Boa noite Gaza! ; Boa noite Inhambane! ; Boa noite Sofala! ; Boa noite Manica! ; Boa noite Tete! ; Boa noite Zambézia! ; Boa noite Nampula! ; Boa noite Cabo Delgado! ; Boa noite Niassa!.
É difícil descrever o que se está a passar, à medida que vão sendo nomeadas as diferentes províncias. Palmas, alegria, gritos, saltos, assobios, choro, lágrimas e sorrisos, há de tudo um pouco. As pessoas estão possuídas por uma euforia colectiva. Abraçam-se, beijam-se, riem e choram ao mesmo tempo. Os flashes disparam em todas as direcções. É uma alegria impossível de descrever em palavras, porque não podemos lá pôr nem os ruídos, nem os cheiros, nem o brilho dos olhos, esses representantes da alma. Todo o salão é um caleidoscópio de combinações e coloridos indecritíveis. Atiram-se serpentinas, confetis, balões e flores por todo o lado...
- Amigos, amigos, só mais uma coisa. O jantar vai ser servido já em seguida. Depois, ao longo da noite, para além do nosso conjunto, teremos aqui amigas e amigos que nos virão ler pequenas prosas, dizer poesia, cantar e contar anedotas. Que esta noite seja, por uma vez, uma noite de tolerância e de benevolência, em que todos vamos aceitar o direito à diferença que existe em cada um de nós, efim, uma noite inesquecível. Para todos vós e para os vossos familiares e amigos: muita saúde, muitas felicidades e muito amor. Que a paz more nos vossos corações. Um Feliz Natal e um próspero Ano Novo de 2006.


Manuel Palhares

Odivelas, 1 de Dezembro de 2005.


P.S. – Aproveito esta oportunidade em que o meu criador aqui vos deixa mais um dos seus sonhos, mais uma das suas utopias, para eu também, vos vir agradecer toda a tolerância, empatia, companheirismo, cumplicidade e amizade que tiveram para comigo ao longo do ano que agora está a acabar. Não vou nomear ninguém, mas acreditem que os vossos nomes me percorrem a memória e moram no meu coração. Muita saúde, muita paz, muito amor e muitas felicidades, para todos sem excepção e também para os vossos familiares e amigos. Um muito Feliz Natal e um muito próspero Ano Novo de 2006.


Manuel, o alucinado internauta

/body>