Beira Meu Amor

A Beira foi o grande amor da minha vida. Recebeu-me com seis anos, em Novembro de 1950 e deixei-a, com a alma em desespero e o coração a sangrar, em 5 de Agosto de 1974. Pelo meio ficaram 24 anos de felicidade. Tive a sorte de estar no lugar certo, na época certa. Fui muito feliz em Moçambique e não me lembro de um dia menos bom. Aos meus pais, irmão, outros familiares, amigos e, principalmente, ao Povo moçambicano, aqui deixo o meu muito obrigado. Manuel Palhares

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sexta-feira, fevereiro 03, 2006

O Ladrão de Fruta


Meus caros amigos,

Como estamos no Natal, achei que esta era a ocasião de vos fazer uma confissão, na esperança de, apanhando-vos mais benevolentes, obter, pelo menos, a compreensão e o perdão de alguns.
Os meus safaris frutíferos pelos quintais do bairro da Ponta Gea, na cidade da Beira, em Moçambique, eram aventuras perigosas que acabavam quase sempre comigo todo sujo e besuntado, arranhado, mordido, sangrando e com a roupa rasgada em algum lugar. Já estão a ver que era coisa perigosa, não é verdade? Mas organizemos as coisas que assim não é modo de contar.
Quando eu era pequenino, por volta dos meus onze, doze anos, uma altura houve em que, fui, tenho que confessar, amigo do alheio, um pequeno ladrão de fruta dos quintais dos vizinhos. Não eram roubos por acaso, tentações de momento, eram mesmo premeditados. Saía de casa preparado para o safari, com um pau comprido com um pequeno gancho na ponta, uma fisga e um saco de pano preso no cinto.
Chegada a época das goiabas ou das maçanicas – vulgo maçãs-da-índia – eu não resistia. Chegavam-me às narinas os seus cheiros. Vinham-me os apetites e toca de ir “caçar”. Geralmente estes roubos eram praticados depois do almoço, à hora de maior calor, em que quase todos estavam recolhidos a descansar.
Dirigia-me à garagem da minha casa que foi o meu sítio secreto ao longo dos anos. Era, na minha imaginação, o equivalente à gruta secreta do Batman, o meu laboratório de reflexão e experiências, onde eu construia ou guardava os objectos que faziam parte do meu mundo e que eram importantes para a minha felicidade. Estava lá guardado o tal pau comprido, ao qual tinha fixado, numa das extremidades um arame grosso em forma de gancho, de modo a pudê-lo encaixar nos ramos mais altos das goiabeiras e maçaniqueiras e assim os dobrar e baixar e conseguir chegar à fruta.
Saía de casa e rua acima, rua abaixo, fazia o reconhecimento do terreno. Àquela hora o dono da casa a visitar já estava no trabalho de novo, mas restava ainda lá muita gente: a mulher, os filhos, os empregados e, o que era pior, os cães. Tinha que ter muito cuidado. Medir a altura dos muros e estudar os quintais contíguos por onde podia escapar em caso de fuga. Eu era magro e ágil e sempre fui um óptimo trepador e corredor. Definida a coutada de caça, lá saltava eu o muro para os domínios do alheio e toca a iniciar a tarefa da apanha da fruta que ia metendo no saco que levava comigo e a qual ia provando para lhe avaliar a qualidade e o sabor.
- Minino, minino – chamava alguém por mim. Eram os empregados que por vezes me apanhavam. – Não pode vir aqui roubar fruta assim. Não está certo. Vai embora, senão eu vai chamar a senhora.
- Deixa-me lá levar algumas. Têm aqui tantas – dizia eu roendo uma pêra goiaba ou uma maçanica, ainda meio verdes (as que eu gostava mais), encavalitado no cimo das respectivas árvores.
- Não pode minino. Depois a senhora e o patrão vai dizer que foi nosso que comeu. Vá, desce da árvore e leva essas que já tem no saco e vai embora.
- Está bem, está bem – retorquia eu fazendo-me de muito aborrecido e saindo do quintal pelo portão que o empregado entretanto me tinha aberto.
Isto era considerada uma excursão quase de sucesso. De sucesso era não ter sido apanhado. De menor sucesso ainda era quando os empregados eram menos compreensivos e dialogantes, me agarravam e levavam à presença das patroas e eu levava raspanetes humilhantes e enormes, de me fazerem corar. Mas a maior das humilhações para mim – que deviam ser estas últimas – não o eram. A maior das humilhações era ser apanhado pelos cães que me retinham no cimo das árvores e não me deixavam descer, em casas em que não apareciam nem empregados nem patrões. Com a fisga e com pedritas ou maçanicas (maçãs-da-índia) verdes e duras, atingia os cães do cimo das árvores e cutucava-os com o pau com o gancho, o que os punha mais à distância, mas ainda os enfurecia mais. Nessas ocasiões havia que tentar a sorte e tirar as medidas dos ramos ao chão e do chão ao muro mais próximo, pedindo aos deuses muita sorte. É óbvio que os cães me mordiam e rasgavam a carne e a roupa, me arranhava e magoava ao saltar os muros e depois ainda tinha que inventar uma história convincente para contar à minha mãe. Mas quando tudo corria bem empanturrava-me e por vezes lá vinham as dores de barriga devido ao facto de gostar desta fruta meio verde.
Passados muitos anos, mais de dez, com quase 23 anos, fui com a minha mãe comprar uma camisa para o meu pai, a uma loja que ficava no Prédio Empório, na fachada que dava para o Cinema Novocine. A loja pertencia a um casal muito simpático e já de alguma idade. Quem nos atendeu foi a senhora que nos foi mostrando camisas e falando com a minha mãe e comigo sempre com muita delicadeza e simpatia. Até que, a certa altura, com um sorriso doce, se vira para mim e diz:
- Está um bonito rapaz! – aí eu também sorri, babado, agradecendo. Eu sempre fui muito elogiado por senhoras de meia idade, passe a imodéstia. Com as meninas da minha idade é que os elogios rareavam mais.
- Muito obrigado – agradeci eu o elogio. - É a simpatia da senhora que a faz falar assim – acrescentei eu todo embalado.
- Mas saiba – disse a senhora – que houve um dia, há muitos anos atrás, que não gostei nada de uma coisa que me fez.
- Eu, minha senhora? Deve-me estar a confundir com outra pessoa – balbuciei eu, tentando a “cem à hora” fazer múltiplos “flashbacks” na minha vida, para ver se me recordava do que se tinha passado entre mim e aquela simpática senhora e que a tivesse desagradado.
- Por certo já não se lembra – afirmou a senhora. - Mas houve um dia em que fiquei muito arreliada e zangada consigo.
- Comigo, minha senhora? – retorqui eu, olhando interrogativo para ela e para a minha mãe, a qual também já mostrava um semblante apreensivo.
- Mas não fiquem assim – acrescentou a senhora vendo a nossa apreensão. - Já foi realmente há muitos anos. E virando-se e falando mais para a minha mãe, explicou:
- É que este bonito rapaz que a senhora aqui tem, gostava muito das goiabas e das maçanicas do meu quintal quando era miúdo. E, se ele mas fosse pedir, eu dava-lhe as que ele quisesse. Mas o que me arreliou foi um dia em que, numa das suas visitas ao meu quintal, me partiu dois ramos de árvores de fruta. Mas isso foi há mais de dez anos. Ele era pequenito e agora está um homem. Ele ainda gosta de goiabas e maçãs-da-índia? – perguntou a senhora, sorrindo de prazer, pela vingança consumada no relato que acabara de fazer à minha mãe.
Meus caros amigos, socorro, tirem-me deste sufoco. Só eu é que fui apanhado? Só eu é que me portei mal? Não aconteceu com alguns de vós nada de parecido ou equivalente? Vá lá, sejam solidários. Agora, a meio século de distância, já não é pecado e podem confessar. A vós, não vos custa nada e eu ficava mais aliviado. Vá lá, coragem.


Manuel Palhares

Odivelas, 5 de Dezembro de 2005.

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Manuel Palhares, querido amigo,

I blogue está muito bonito.

Este texto, que já tinha lido, é belíssimo e comovente.

Os meus parabens.

É preciso continuares a contar-nos tudo o que a tua memória e imaginação são capazes.

Assim ajudas-nos a embelezar a nossa vida.

Agora uma novidade:

Nos Serviços de Economia, em Lourenço Marques, tive como colega o Tolentino que foi teu colega de liceu, na Beira.

Na última quinta-feira do mês passado encontrámo-nos no restaurante Nova Goa, num almoço de confraternização entre ex-colegas dos serviços acima referidos. Falei-lhe no site de Quelimane e mencionei o teu nome.
Tive pena de não poder fornecer-lhe informações sobre a tua pessoa pois ele mostrou-se muito interessado em saber o que se passa contigo.

Na última quinta feira do M~es corrente teremos movo almoço. Desta vez no restaurante Bom Apetite, em Lisboa alí à Avenida da Liberdade.

Se te lembras dele e estás interessado em dar notícias diz.

Não tenho a certeza de o encontrar. Porém, posso pedir o contacto dele.

Um beijinho com muito carinho da Aida

sexta-feira, fevereiro 10, 2006 3:47:00 da tarde  
Blogger Manuel Palhares said...

Minha querida amiga Aida,

Se me visses agora dirias que não estou feliz, porque tenho uma irritante névoa a impedir-me de ver bem as teclas, mas é de muita satisfação.
Por várias emoções que se
conjugaram: por te ver aqui,pelas palavras que me diriges e por me vires aqui falar numa pessoa que ao longo destes 32 anos me vem com assiduidade à memória com muita saudade - o meu querido amigo Tolentino.
Nem imaginas a intensidade das emoções que me provocaste e dede já te agradeço.
Com o que atrás fica escrito já vês que me lembro do Tolentino e muito e se me arranjares o seu contacto fico-te muito grato.
Como tem sido gratificante esta coisa da internet, que me entrou pela casa dentro há quinze meses atrás e só me tem dado alegrias.
Também com todo o carinho do mundo, recebe um beijinho do
amigo sempre ao dispor,

Manel

P.S.: Como as emoções foram tantas e intensas, ficou por dizer o óbvio, mas nunca é mau frizá-lo - este blog também é teu e publica aqui o que muito bem entederes.

sexta-feira, fevereiro 10, 2006 4:58:00 da tarde  

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