Beira Meu Amor

A Beira foi o grande amor da minha vida. Recebeu-me com seis anos, em Novembro de 1950 e deixei-a, com a alma em desespero e o coração a sangrar, em 5 de Agosto de 1974. Pelo meio ficaram 24 anos de felicidade. Tive a sorte de estar no lugar certo, na época certa. Fui muito feliz em Moçambique e não me lembro de um dia menos bom. Aos meus pais, irmão, outros familiares, amigos e, principalmente, ao Povo moçambicano, aqui deixo o meu muito obrigado. Manuel Palhares

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sexta-feira, fevereiro 03, 2006

E depois...


“Olha, fala com ela!” – tinha-me dito a minha mãe. Mas falar com ela como?! Ali no cinema ou na praia, sempre rodeada daqueles tipos parvos, que não saíam de ao pé dela?! Ah! Que raiva eu sentia daqueles tipos todos, que passaram a ser seus colegas na escola. Que coisas eu imaginava gostar de lhes fazer! Espero que os deuses já me tenham perdoado por tão pecaminosos pensamentos. Mas é a tal coisa! Não era eu que os queria fazer desaparecer da face da Terra – era o meu pensamento! Que podia eu fazer para evitar esse pensamento amigo?! Nada, porque me convinha, me amenizava a dor e tornava menos turva a visão. Por vezes, o meu pensamento, era tão meu amigo, que arranjava formas particularmente sádicas de mandar desta para melhor aqueles tipos que borboletavam à sua volta, que me deixavam bastante satisfeito e sorrindo de prazer.
- Palhares! Eia Manuel Palhares! – alguém chamava por mim. Era o Silvestre.
- Então pá, estás bom? – exclamou ele, sempre muito bem disposto e sempre louco por experiências e aventuras.
- Olá! – respondi-lhe eu vagamente.
- Então pá, que é isso? Aconteceu-te alguma coisa? – perguntou ele sempre com aquela entoação bem disposta, que me irritava quando eu andava nas minhas crises existenciais. - Olha, queres saber o que descobri?! - disse ele sem esperar pela resposta. - Ali, ao pé do campo de basquetebol do Desportivo da Beira, alugam motorizadas Solex por dez paus a hora! É uma senhora quem as aluga. O mínimo que ela aluga são quinze minutos, por dois escudos e cinquenta centavos. Queres ir lá experimentar?
- Ó pá, eu não tenho nem uma quinhenta comigo! – respondi-lhe.
- Não faz mal. O meu pai hoje deu-me dez paus e ainda tenho cinco escudos.
Podíamos ir até lá e cada um andava quinze minutos! Que dizes?
Lá chegados, subimos meia dúzia de degraus, para bater à porta daquele rés-do-chão elevado.
- Olá Manel, estás bom? – ouvi eu, muito ao longe, perguntar a menina e agora linda rapariga, que era a razão de todos os meus tormentos. O meu coração saltava-me dentro do peito, a boca ficou-me seca e senti um calor enorme na cara e nas orelhas.
- Então pá, não ouves a miúda a perguntar se estás bom? – protestou o Silvestre, que nestas coisas de miúdas estava sempre muito mais à vontade do que eu, porque tinha irmãs. - Então já se conhecem? Muito bem! – que raiva eu tinha daquele à vontade dele com as miúdas.
- Já! – repondeu ela, dando uma gargalhada cristalina e mostrando aqueles lindos dentes que tinha.
- Olá, boa tarde. – balbuciei eu. - Não sabia que moravas aqui. Este meu amigo descobriu que aqui alugam motorizadas Solex. – justifiquei-me eu por estar ali, quando no fundo da minha alma, era o que eu mais desejava na vida.
- É verdade, o meu pai resolveu comprar duas motorizadas Solex e alugá-las. Querem alugar uma ou as duas?
- Uma! - disse eu.
- As duas! – proferiu o Silvestre. - Parece que estás parvo! Então eu não te disse que tinha dinheiro para andarmos os dois?! – eu, naquela altura, apeteceu-me matar o bom do Silvestre com requintes de malvadez. Ele tinha acabado de me tirar a possibilidade de estar ali a falar com ela e de tê-la só para mim durante meia hora.
Depois aluguei muitas vezes as motorizadas Solex, sempre por períodos de quinze minutos. Muitas vezes sem sair da rua. Quando ela ficava na varanda e me sorria, enquanto eu passava para cima e para baixo. Até cheguei a treinar basquetebol, no Desportivo da Beira, só para ter a oportunidade de a ver mais vezes e falar com ela.
Depois, depois, num carnaval, conheci uma outra rapariga que me deu fortes razões para eu começar a alugar cada vez menos as Solex.


Manuel Palhares

Odivelas, 9 de Janeiro de 2006.


* Gravura publicada pela Gabi na comunidade de Quelimane.

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