Beira Meu Amor

A Beira foi o grande amor da minha vida. Recebeu-me com seis anos, em Novembro de 1950 e deixei-a, com a alma em desespero e o coração a sangrar, em 5 de Agosto de 1974. Pelo meio ficaram 24 anos de felicidade. Tive a sorte de estar no lugar certo, na época certa. Fui muito feliz em Moçambique e não me lembro de um dia menos bom. Aos meus pais, irmão, outros familiares, amigos e, principalmente, ao Povo moçambicano, aqui deixo o meu muito obrigado. Manuel Palhares

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terça-feira, janeiro 31, 2006

As minhas aventuras em Pebane - I


Episódio Nº 1


Estávamos em Moçambique, no ano de 1955, em Pebane, ao norte de Quelimane.
Eu tinha 10 anos.


Os passáros cantavam e saltitavam na árvore junto à janela do quarto e eu inspirei fundo e a satisfação do ar a encher-me os pulmões era enorme. Era um despertar doce, afagado pelos pássaros e pelos cheiros que entravam pela janela. A aurora ainda estava a terminar e o sol já espreitava. Em África o dia e a noite não faziam cerimónias para aparecerem. Anuciavam-se e aconteciam em meia hora. Eram de partos rápidos. Como quase tudo o que acontecia naquela terra, tudo nascia e crescia depressa. Espreguicei-me e acabei de acordar, feliz! Lá fora, à sinfonia dos pássaros, juntava-se agora o ladrar dos cães. Era um ladrar bem disposto e brincalhão. Chegava agora até mim um dos cheiros mais deliciosos que eu conhecia àquela hora da manhã – o cheiro a pão acabado de cozer, no forno de lenha feito de barro! Pulei da cama com uma enorme alegria pelo nascer de mais um dia. Uma pequena preocupação passou-me pela mente – não ia ter tempo para fazer tudo o que desejava num só dia. Mas depressa me esqueci disso com a chegada dos cães, que entretanto tinham entrado pela porta da cozinha, quando o cozinheiro regressou com os pães acabados de cozer. A nossa alegria, pelo reencontro da manhã, era igual a que sentíamos quando já não nos víamos há uns tempos! Mas que saudades demonstrávamos por termos estado umas horas sem nos vermos! Quase me deitavam ao chão e rosnavam uns aos outros, querendo cada um deles o privilégio de ser o primeiro a cumprimentar-me. Eu sentava-me no chão e abraçava-os a todos e apanhava com a primeira lavadela de cara, tantas eram as lambidelas. Depois íamos em excursão para a casa de banho, onde eles ficavam à porta, enquanto eu tomava um duche e lavava os dentes. Tudo isto a correr! Tal era a pressa que eu tinha, porque o tempo era pouco, para tantas coisas que eu tinha que fazer. A minha cabeça não parava de inventar reinos para eu reinar e explorar – aumentava-me os domínios e eu sonhava acordado!
- Bom dia filho! – dormiste bem?
- Bom dia mamã! Dormi muito bem! Queres que te conte com o que sonhei esta noite? – perguntei eu a minha mãe, enquanto ela ia ajudando o meu irmão a tomar o pequeno almoço. Eu tinha sempre coisas para contar à minha mãe, fossem sonhos ou não.
- Mais logo querido! Se não te importas. Agora estou a tratar do mano. Depois do almoço, está bem?
- Está bem mamã! Conto-te logo.
- Andas sempre com esses cães atrás de ti! Enquanto tomares o pequeno almoço a meias com eles, não te largam!
- Não fiques aborrecida, mamã. Eles gostam muito de mim.
- Isso sei eu! Mas é de mais.
- Bem mamã, agora tenho que ir. Tenho muito que fazer hoje!
- Calculo, calculo!
Levantei-me, dei um beijo na minha mãe, fiz uma festa ao meu irmão e já de costas atirei um “Até logo!”
- Até logo, até logo! Tem cuidado, vê lá por onde andas! – ainda ouvi a minha mãe dizer.
Cá fora, já à minha espera, estava um menino negro, mais ou menos da minha idade, que entretanto fazia festas aos cães.
- Olá! Olá! – gritei-lhe eu.
- Olá! – respondeu ele, olhando-me de alto a baixo. Tínhamo-nos conhecido no dia anterior e combinámos brincar no dia seguinte. Ele era filho de um empregado da casa ao lado daquela onde estávamos hospedados. Ele continuava a olhar para mim, mirando-me.
- Que foi, para onde estás a olhar?
- Estás engraçado tu!
- Engraçado! Eu? Porquê? – retorqui eu, mirando-me desconfiado.
- Esse teu chapéu, esse teu óculo, esse teu faca, esse teu espingarda, esse teu sapato! Tudo bonito! Aqui não tem essas coisas. Eu não tenho...
Eu apareci-lhe com aqueles chapéus de caqui coloniais, com tiras de cabedal castanho, umas fivelas cromadas e uns respiradores laterais de rede metálica dourada. De óculos escuros, de armação branca e lentes verdes, e de sandálias. No cinto, um pequeno punhal, e na mão uma espingarda de lata que tinha na extermidade do cano, no sítio de saída das balas, uma rolha de cortiça presa a um cordel, o qual por sua vez estava fixo à ”arma”. A espingarda armadilhava-se dobrando-a ao meio, o que fazia recuar um êmbolo, o qual, ao pressionar-se o gatilho fazia a rolha disparar. Estava equipado como um caçador para um safari! Ele, o menino negro, estava de tronco nu, com uns calções de pano finos e gastos, de cor indefinida e descalço.


Fim do 1º Episódio


Manuel Palhares

Odivelas, 14 de Setembro de 2005.

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