Beira Meu Amor

A Beira foi o grande amor da minha vida. Recebeu-me com seis anos, em Novembro de 1950 e deixei-a, com a alma em desespero e o coração a sangrar, em 5 de Agosto de 1974. Pelo meio ficaram 24 anos de felicidade. Tive a sorte de estar no lugar certo, na época certa. Fui muito feliz em Moçambique e não me lembro de um dia menos bom. Aos meus pais, irmão, outros familiares, amigos e, principalmente, ao Povo moçambicano, aqui deixo o meu muito obrigado. Manuel Palhares

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domingo, janeiro 29, 2006

O cozinheiro Buínde

- Ó Buínde! Conta-me uma história. Anda lá, conta-me lá – suplicava eu ao cozinheiro dos meus pais enquanto ele, atarefado, jurava que não sabia mais.
- Oh! Assim não gosto mais de ti. Conta aquela da Kizumba. Conta, conta...
-“Nosso” agora não pode. Tem que fazer o jantar. O menino sai daqui, porque o patrão não vai gostar!
- O patrão não zanga nada... Se tu contares uma só, pequenina, eu depois vou brincar.
- Ai! ...este menino! Não deixa “eu” trabalhar. Pronto, está bem! Só uma mesmo, mas pequena. Depois o menino vai embora, para o Buínde fazer o jantar.
- Está bem! Está bem! Só uma, conta, conta!
- Era uma vez um menino, mesmo igual “como” o menino, que vivia lá longe, no mato.
- Depressa, conta, conta!
- Tem que ter calma. Assim, se fala, “nosso” não pode contar.
- Está bem, está bem...
- Então esse menino, que brincava lá no mato, também gostava de “história”. E foi pedir a um cocuana da aldeia dele, para contar uma história para ele.
- E depois, e depois...
- Depois esse cocuana, lá da terra, contou assim para ele:

«Quando eu não era cocuana, quando eu era novo como tu, havia aqui outro cocuana, como eu sou agora, que dizia que havia, longe daqui, uma aldeia em que havia meninos que não “tinha” nariz. Os meninos que “mentia” não “tinha” nariz. O curandeiro dessa terra conhecia uma kizumba que vinha de noite à machamba para comer os repolhos. E combinou com ela que não fazia mal ela comer o repolho se assustasse os meninos. Assim ele, como era curandeiro, fez um cuchcuch. Os meninos que “mentia”, de noite iam para a cama e começavam a dormir e começavam a sonhar. Sonhavam que vinha uma hiena que comia o nariz a eles e, mesmo a dormir, começavam a chorar maningue. A kizumba ia espreitar “no” palhota e começava a rir, a rir, a rir... Os meninos, “todos com os suores”, acordavam cheios de medo do sonho e quando viam a kizumba, começavam a gritar e a agarrar “nos” nariz para ver se “os tinha” no sítio. E assim, “desto maneira”, aqueles meninos não “mentia” mais.»

Eu, que estava sentado no chão, nesta altura, já tinha as pernas encolhidas e sobre os joelhos o queixo. Com uma mão agarrava o meu nariz. Com a outra cobria a cabeça, todo espremido junto à geleira de petróleo.
- Vá, agora vai brincar, vai. Deixa o Buínde trabalhar, deixa o Buínde fazer o jantar – dizia ele com um sorriso bondoso, onde não escondia o gozo, do medo que eu sentia...
Outras ocasiões em que o Buínde sorria, ria até, era quando a ama do meu irmão, a Rosa, uma linda manacage, passava pela porta da cozinha com o meu irmão ao colo, lentamente, devagar, toda cheia de requebros e olhando de soslaio, fingindo não o ver. Ele ficava parado, petrificado, com um sorriso aparvalhado e os olhos todos dengosos...
- Ó Buínde, o que é que tens rapaz? Estás aí parado com tanto para fazer, valha-me Deus Nosso Senhor! – dizia a minha mãe disfarçando e contendo o riso.


Manuel Palhares

Odivelas, 1 de Agosto de 2005.

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