Beira Meu Amor

A Beira foi o grande amor da minha vida. Recebeu-me com seis anos, em Novembro de 1950 e deixei-a, com a alma em desespero e o coração a sangrar, em 5 de Agosto de 1974. Pelo meio ficaram 24 anos de felicidade. Tive a sorte de estar no lugar certo, na época certa. Fui muito feliz em Moçambique e não me lembro de um dia menos bom. Aos meus pais, irmão, outros familiares, amigos e, principalmente, ao Povo moçambicano, aqui deixo o meu muito obrigado. Manuel Palhares

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domingo, março 05, 2006

Poetisa da Semana: Cecília Meireles


Motivo


Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.



Cecília Meireles

12 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Mais uma que adoro
"Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar
-depois abri o mar com as mãos
para o meu sonho naufragar...."
Um beijo pelas óptimas escolhas
MManuel

segunda-feira, março 06, 2006 10:17:00 da manhã  
Blogger Manuel Palhares said...

Maria Manuel,

Que lindo o que aqui nos deixas.
Obrigado.
Um beijinho.

Manel

segunda-feira, março 06, 2006 10:44:00 da manhã  
Anonymous Mayra Meireles said...

Manel,
Difícil é eu encontrar um poema da Cecília Meireles que eu não goste.
Como ví, a MManuel também e para os dois, deixo aqui o "4º motivo da rosa"....bem curtinho, mas DIZ muito.
Um beijo para os dois,
Mayra

4o. Motivo da rosa


Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.


Rosas verá, só de cinzas franzida,
Mortas, intactas pelo teu jardim.


Eu deixo aroma até nos meus espinhos
Ao longe, o vento vai falando de mim.


E por perder-me é que vão me lembrando,
Por desfolhar-me é que não tenho fim.

segunda-feira, março 06, 2006 5:40:00 da tarde  
Anonymous Mayra Meireles said...

Murmúrio (Cecília Meireles)


Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.


Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.


Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!

Manel,
Vê aqui se existe um "murmúrio" mais gritante que este!!!!!
Beijinhos,
Mayra

segunda-feira, março 06, 2006 5:53:00 da tarde  
Blogger Manuel Palhares said...

Mayra,

Fabulosos, encantadores, desprendidos...
Obrigado.
Um beijinho,

Manel

segunda-feira, março 06, 2006 5:59:00 da tarde  
Anonymous coca-cola said...

Gargalhada


Homem vulgar! Homem de coração mesquinho!
Eu te quero ensinar a arte sublime de rir.
Dobra essa orelha grosseira, e escuta
o ritmo e o som da minha gargalhada:


Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah!


Não vês?
É preciso jogar por escadas de mármores baixelas de ouro.
Rebentar colares, partir espelhos, quebrar cristais,
vergar a lâmina das espadas e despedaçar estátuas,
destruir as lâmpadas, abater cúpulas,
e atirar para longe os pandeiros e as liras...


O riso magnífico é um trecho dessa música desvairada.


Mas é preciso ter baixelas de ouro,
compreendes?
— e colares, e espelhos, e espadas e estátuas.
E as lâmpadas, Deus do céu!
E os pandeiros ágeis e as liras sonoras e trêmulas...


Escuta bem:


Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah!


Só de três lugares nasceu até hoje essa música heróica:
do céu que venta,
do mar que dança,
e de mim.

Beijinho Manel e bom dia

terça-feira, março 07, 2006 10:29:00 da manhã  
Anonymous coca-cola said...

Esqueci-me de dizer que a poesia é de Cecília Meireles
Sorry

terça-feira, março 07, 2006 11:12:00 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

HISTÓRIA DA VIDA
“A vida só é possível reinventada”



“- Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa, e sentia-me completamente feliz. (...)”

(Arte de ser feliz, Escolha seu sonho)

Olá Manel,
Sempre a Cecília tem razão nas afirmações que faz, não acha?
Beijinhos,
Mayra

terça-feira, março 07, 2006 5:29:00 da tarde  
Anonymous Mayra Meireles said...

À memória da avó, falecida em 1932, Cecília dedica uma “Elegia”:



“Minha primeira lágrima caiu dentro de teus olhos”.

Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído.



No dia seguinte, estavas imóvel, na tua forma definitiva,

Modelada pela noite, pelas estrelas, pelas minhas mãos.



Exalava-se de ti o mesmo frio do orvalho; a mesma claridade da lua.



Vi aquele dia levantar-se inutilmente para as tuas pálpebras,

E a voz dos pássaros e a das águas correr,

- sem que a recolhessem teus ouvidos inertes.



Onde ficou teu outro corpo? Na parede? Nos móveis? No teto?



Inclinei-me sobre o teu rosto, absoluta, como um espelho,

E tristemente te procurava.



Mas também isso foi inútil, como tudo mais.

***********************************
Até a morte, assim "vira" um poema....
Beijinhos,
Mayra

terça-feira, março 07, 2006 5:42:00 da tarde  
Blogger Manuel Palhares said...

Coca-Cola,

Muito obrigado por mais esta linda colaboração.
Um beijinho,

Manel

**********************************

Mayra,

Muito obrigado por mais esta preciosa colaboração. Eu também sou suspeito porque gosto muito dela. Acho que tem uma força extraordinária.
Um beijinho,

Manel

terça-feira, março 07, 2006 7:30:00 da tarde  
Anonymous coca-cola said...

CANÇÃO

Nunca eu tivera querido
dizer palavra tão louca:
bateu-me o vento na boca,
e depois no teu ouvido.

Levou somente a palavra
deixou ficar o sentido.
O sentido está guardado
no rosto com que te miro,
neste perdido suspiro
que te segue alucinado,
no meu sorriso suspenso
como um beijo malogrado.
Nunca ninguém viu ninguém
que o amor pusesse tão triste.
Essa tristeza não viste,
e eu sei que ela se vê bem...
Só que aquele mesmo vento
fechou teus olhos, também...


Achei muito lindo.
Boa sexta feira a todos
Beijinhos e abraços

quinta-feira, março 09, 2006 10:29:00 da tarde  
Anonymous Manuel Palhares said...

Coca-Cola,

Mais uma linda e preciosa colaboração. Obrigado, bom fim-de--semana e um beijinho,

Manel

sexta-feira, março 10, 2006 4:53:00 da tarde  

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