Beira Meu Amor

A Beira foi o grande amor da minha vida. Recebeu-me com seis anos, em Novembro de 1950 e deixei-a, com a alma em desespero e o coração a sangrar, em 5 de Agosto de 1974. Pelo meio ficaram 24 anos de felicidade. Tive a sorte de estar no lugar certo, na época certa. Fui muito feliz em Moçambique e não me lembro de um dia menos bom. Aos meus pais, irmão, outros familiares, amigos e, principalmente, ao Povo moçambicano, aqui deixo o meu muito obrigado. Manuel Palhares

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domingo, janeiro 29, 2006

Quem se lembra, quem se lembra, de uma ida ao cinema?

Quando eu era menino, às vezes, aos sábados ou aos domingos, de tarde, eu ia ao cinema, eu ia à “ matiné ”. E vocês também! Quem se lembra? Quem se lembra?
Ah que grande excitação! Todos muito arranjadinhos, cheirosos e lavadinhos...
Aquilo era uma alegria naquelas sessões da tarde: ou se ia ao cinema REX, ou ao cinema OLÍMPIA, porque não havia mais nenhum. Para os que só agora vão ao cinema, de há trinta anos para cá, deixem-me que vos diga que, antigamente, essa acção era diferente. Não se entrava numa sala e se estava ali fechado, entre duas a três horas, saindo de lá cansado, com os olhos a arder e com a bexiga apertada. Nada disso! É que dantes havia uma coisa, havia algo, havia um espaço de tempo chamado INTERVALO. E havia dois: o primeiro e o segundo! Que entre outras coisas serviam, para mostrarmos o entusiasmo sobre o que já se tinha visto, trocarmos opiniões, beber um refresco, fazer um xixi...
Bem! Todos excitados, de bilhete na mão, lá íamos em direcção ao porteiro para ele nos cortar o talão. Depois, pela sala fora, à procura do lugar. O entusiasmo ia em crescendo...Quando tocava o gongo para as luzes se apagarem já não aguentávamos mais, começava a agitação. E fechavam-se as luzes e abria o pano! Uf! Até que enfim... Nem que tivessem sido uns minutos, aquela espera, parecia anos...
E na pantalha aparecem os desenhos animados. Era uma gritaria, era o delírio total! E vêm os nossos primeiros heróis: o Pernalonga ou Bugs Bunny – isso agora não interessa – o Tom e o Jerry, o Mister Magoo, o Piu-Piu e o gato Silvester, o Pato Donald e toda a sua família e tantos, tantos outros mais... Nós encolhíamos de medo ou gritávamos de satisfação, conforme a ocasião e o apuro pelo qual o nosso herói estava, naquele momento, a passar. E pensam que acabava toda aquela animação com o fim dos desenhos animados? Nem pensem nisso! Aquilo não era nada, estava só a começar. Ainda não tínhamos sossegado, ainda o “That’s all folks...” e o “The End” estavam na nossa retina e já no écran aparecia o começo de um episódio de outros nossos heróis: o Roy Roger e o Tom Mix e tantos outros cowboys; o Homem Bala e o Batman e também o.... “ IT’S SUPERMAN!”. Acreditem, podem crer, que era a loucura geral. Gritávamos, batíamos palmas e batíamos com os pés no chão... E então os Três Patetas, esses grandes estarolas?! Meninos, aquilo é que era animação! Em seguida vinham os jornais noticiosos e as apresentações de outros filmes, para nos abrir o apetite para futuras sessões. E connosco exaltados e rubros até, lá vinha o primeiro intervalo! Quase que era um alívio poder sair por uns momentos da sala. Muitos corriam para o xixi e depois para o copo de água...que lá fazia calor. Juntávamo-nos em grupos e falávamos alto. Discutíamos o que se tinha passado e o que vinha a seguir. Como éramos pequenos com os nossos seis, sete, oito, nove, dez anos!
Ding-Dong! Era o fim do primeiro intervalo. Corríamos para a sala e para os nossos lugares... E começava o filme, só com coisas de encantar: A Branca de Neve e os Sete Anões, A Bela Adormecida, A Gata Borralheira e, claro, esse herói maravilhoso que era o Peter Pan! Mais de carne e osso e meninos como nós, havia os filmes com a Marisol e com o Joselito. Mas esses eram por vezes tristes, faziam chorar, embora acabassem bem. E todos nós sonhávamos com os olhos bem abertos... E quando a acção se encontrava no máximo da excitação, quando todos nós queríamos ver como era a continuação, as luzes acendiam-se de novo e a cortina fechava: era o segundo intervalo! De novo cá para fora, aqueles que queriam vir. Outros esperavam na sala, sentados nos seus lugares, que o intervalo acabasse... Nova troca de opiniões. Como será que irá acabar? Finalmente terminava este intervalo de suspensão e podíamos continuar a ver o decorrer da acção. E quando tudo acabava, quando chegava o final, era ver como saíamos da sala, era olhar para as nossas caras: mas que grande felicidade, mas que grande satisfação, trazíamos espelhadas nos rostos. Eram faces de crianças que ainda não conheciam o mal, que só queriam ir para casa jantar, ir depressa para a cama e depressa adormecer, para poderem sonhar outra vez...


Manuel Palhares

Odivelas, 28 de Julho de 2005.

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