Beira Meu Amor

A Beira foi o grande amor da minha vida. Recebeu-me com seis anos, em Novembro de 1950 e deixei-a, com a alma em desespero e o coração a sangrar, em 5 de Agosto de 1974. Pelo meio ficaram 24 anos de felicidade. Tive a sorte de estar no lugar certo, na época certa. Fui muito feliz em Moçambique e não me lembro de um dia menos bom. Aos meus pais, irmão, outros familiares, amigos e, principalmente, ao Povo moçambicano, aqui deixo o meu muito obrigado. Manuel Palhares

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terça-feira, agosto 19, 2008

Beira Meu Amor



Minha Querida Beira,

Recordo tão bem a minha chegada ao teu Porto, numa manhã esplendorosa do fim de Novembro de 1950.
À nossa espera, da minha mãe e de mim, o meu pai, que não cabia em si de contente e que tinha chegado a ti, vindo do Porto, uns meses antes. Veio da firma Engenheiros Reunidos, do Porto, e fora chamado pelo engº. Ribeiro Alegre, a quem tinha sido pedido que fizesse parte do grupo de estudo do plano de urbanização do teu tecido urbano.
Depois de levantadas as malas e terminada a burocracia alfandegária, dali partimos para a Pensão Leão de Ouro, no Jardim do Bacalhau, ali tão pertinho do Pavilhão Oceana.
E como foram bons aqueles oito meses que ali vivemos, comigo a maior parte do tempo na praia e no jardim.
Mesmo ao lado vivia a Nicy, filha do sr. Marinho, piloto da barra, e que era cunhado dessa figura incontornável, a Rosinha Tato, da Casa Salema. Muito por ali brinquei, mas sempre atento à aproximação da Maria Manuel, que adorava atirar para cima dos meus infantis e desdentados seis anos, os seus velhícimos e desdenhosos nove anos. Como eu sofri com o seu desdém... Mais boazinha, quase maternal, era a Teresa Vaz Oliveira...
E foi passando o tempo...e tu, de uma cidade quase toda construida de madeira e zinco, transformaste-te numa urbe moderna, onde não faltava quase nada, e nós crescemos contigo...e, pré-adolescentes, participámos nas festas alusivas ao teu cinquentenário, em 1957.
Aí se processaram todos os nossos sonhos de crianças, adolescentes e jovens adultos, e aí se concretizaram em realidade alguns deles, sempre debaixo da tua protecção...
E, quando nos preparávamos para começar a assumir responsabilidades, no processo inevitável da independência de Moçambique, foi tudo já tão fora do tempo, que deu no que deu...
Mas tirarem-nos o imensurável amor que todos temos por ti é que não foi possível! Por isso este corre-correr de cá para aí, em excursões durante todo o ano, como também aconteceu o ano passado, quando se cumpriu o teu primeiro centenário.
E, daqui a minutos, fazes cento e um aninhos!
Parabéns, minha querida, e que os deuses te dêem, a ti e a todos os que aí vivem, tempos de grande desenvolvimento e de muita prosperidade...
A nós, os que por cá estamos, sem retorno, resta-nos ir sabendo de ti, on-line, como agora se diz, até que chegue a hora da nossa partida para outras formas atómicas de existência...e, quem sabe, se levados pela água ou pelo vento, possamos, em átomos, um dia a ti voltar...
Adeus minha querida Beira, adeus Beira Meu Amor!

Manuel Palhares

Odivelas, 19 de agosto de 2008.

3 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Boa tarde Manel.
Já te dediquei duas letrinhas no grupo, mas não podia deixar de te dar mais uma palavrinha neste teu lindo blog.
Sente-se que quando escreves, estás a sentir aquilo que te vai na alma meu amigo. De facto nós por mais que os anos passem, teremos sempre no coração a nossa Beira.
Eu já não tenho muita esperança de lá voltar, pois a idade passa, os filhos cresceram, vieram os netos, e já ninguém pensa como eu. Na minha familia sou a unica que ainda chora quando lê ou vê fotos da minha terra. Vou vivendo das recordações e como tu dizes daquilo que vamos tendo on-line
Um beijinho e obrigada.
Teresa

quarta-feira, agosto 20, 2008 6:40:00 da tarde  
Blogger Manuel Palhares said...

Teresinha,

Obrigado pelas lindas palavras que aqui escreveste.
Deves ser uma Menina muito doce, como eram quase todas as meninas da "nossa" Beira: lindas, educadas, sensíveis e doces.
Eu sei, porque já me contaste, que na tua família já só tu tens saudades da Beira: o teu marido não era de lá e os teus filhos vieram para cá pequenos.
Os meus filhos fazem o frete de me ouvir falar de lá e, o que me vale, foi ter casado com uma moçambicana...
Vou começar a aparecer por aqui mais vezes, porque tenho em ideia publicar umas crónicas, e é impensável publicá-las na Comunidade da Beira, por ser assunto muito sensível e polémico.
Um bom fim-de-semana e um beijinho do,

Manuel Palhares

sábado, agosto 23, 2008 5:42:00 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Só hoje li este post e estou como a Teresa, mas tenho mais esperança que ela em lá voltar, embora contra ventos e marés. Até já pedi que qdo reencarnar quero nascer na Beira outra vez, calcula!!!
Dá-nos sempre as tuas recordações que se tornam nossas també e nos fazem bem à alma.
Beijinho

sábado, setembro 20, 2008 5:11:00 da tarde  

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