Beira Meu Amor

A Beira foi o grande amor da minha vida. Recebeu-me com seis anos, em Novembro de 1950 e deixei-a, com a alma em desespero e o coração a sangrar, em 5 de Agosto de 1974. Pelo meio ficaram 24 anos de felicidade. Tive a sorte de estar no lugar certo, na época certa. Fui muito feliz em Moçambique e não me lembro de um dia menos bom. Aos meus pais, irmão, outros familiares, amigos e, principalmente, ao Povo moçambicano, aqui deixo o meu muito obrigado. Manuel Palhares

Archives
A minha fotografia
Nome:
Localização: Odivelas, Lisboa, Portugal

sábado, novembro 11, 2006

Um Conto de Natal

Meus caros amigos,

A acção passou-se em Moçambique, na cidade da Beira, a meio da avenida que liga o cinema S. Jorge à Praça da Índia, na década de cinquenta, do século passado.
Eu e o meu amigo Zé Roca, dos seis, até aos quinze, dezasseis anos de idade, éramos razoavelmente educadinhos, mas terríveis para a asneira e, se um se lembrava de juntar palha para a fogueira, o outro já estava de fósforo aceso. Foram muitas as asneiras em que colaborámos: terrestres, aquáticas e aéreas! Como estamos vivos, ainda hoje é um mistério, pois tais eram as asneiras que fazíamos, algumas delas bastantes perigosas.
Vem tudo isto a propósito de uma patifaria e vingança que fizemos aos gatos siameses lá de casa, os preferidos da sua avó e da sua mãe : a senhora D. Lucília Roca e a senhora D. Berta Roca, respectivamente.
Como depois do almoço estava muito calor, ficávamos dentro de casa a ouvir música e a brincar, ora a treinar piriquitos, ora a domesticar hamsters. Como já vos disse, lá em casa havia gatos siameses, os quais estavam sempre de olho faiscante, quer nos pássaros, quer nos ratos e nós sempre a afugentá-los ao ponta-pé, isto se a avó ou a mãe do Roca não estivessem por perto, claro.
Acontece que estávamos nós, um certo dia, a brincar com um dos hamsters, quando um dos gatos salta para cima da mesa onde decorria a brincadeira. Foi grande a confusão, como podem calcular e, depois de tudo acalmar, o rato estava morto - tinha morrido de ataque cardíaco! A nossa vontade foi, logo ali, reclamar vingança e matar os gatos à paulada ou à chumbada, com a espingarda de chumbo que o meu amigo tinha. Mas, a presença um tanto ou quanto divertida da avó e da mãe do meu amigo, impediram-nos de levar a cabo o nosso desiderato. Espumando de raiva, lá fomos fazer o funeral ao ratinho e a coisa naquele dia ficou por ali.
Passados uns dias, perto do Natal, julgo eu, estavam a avó e a mãe do Roca a dormir a sesta, quando tivemos uma brilhante e divertida ideia: proporcionar aos nossos inimigos gatos, uma aula de patinagem, no soalho impecavelmente encerado das salas de estar e de jantar lá de casa.
Se melhor o pensámos, mais depressa passámos à prática. Fomos até à despensa buscar umas nozes, abrimo-las ao meio com muito cuidado, tiramos de lá de dentro as nozes, que entretanto íamos comendo e, assim, obtivemos oito meias-nozes, que seriam os patins dos bichanos nossos inimigos. Conseguidos então os patins, chamámos, com todo o encanto de que fomos capazes, os bichanitos, com falsos "bichus", "bichus". Os gatos (que sempre desconfiram de nós), diga-se em abono da sua felina inteligência, lá vieram no engodo de bocaditos de queijo. Cada um de nós apanhou o seu gato e, quando deram por ela, estavam com meia casca de noz em cada pata. Depois, foi só deixar que saltassem para o chão. Aquilo é que foi divertido, vê-los a tentarem por-se em pé e a espalmarem-se no soalho, a brilhar de tão encerado que estava. Nós, agora, espumávamos, mas era de satisfação, por ver as cenas que os gatos faziam para se porem direitos e ouvir os miados, bufos e ruídos esquisitos que emitiam. Estávamos nós assim tão divertidos, quando as nossas orelhas acabaram nas mãos da avó e mãe do Roca, enquanto um criado tentava tirar as cascas de nozes das patas dos gatos, sem ser mordido ou arranhado.
No Natal, a prenda que a avó do Roca me deu, foi um livro e um "gato-salcicha", em porcelana, para eu nunca mais me esquecer da maldade que fizéramos.

Manuel Palhares

Odivelas, 11 de Novembro de 2006.

12 Comments:

Anonymous Angela Ferreira said...

Espectacular ! Adorei ler este blog, muito bom...

sábado, novembro 11, 2006 10:18:00 da tarde  
Blogger Manuel Palhares said...

Ângela,

Muito obrigado pela sua visita e pelas suas amáveis palavras.
Um bom domingo para si.
Um beijinho,

Manuel Palhares

sábado, novembro 11, 2006 10:37:00 da tarde  
Anonymous M.Costa said...

Manel
Safaram-stae porque ainda não havia a Sociedade Protectora dos Animais...
Um abraço para ti outro para o Roca.
M.Costa

segunda-feira, novembro 13, 2006 2:39:00 da tarde  
Blogger Isabel Ribeiro said...

Manel.
Cada dia que passa o Menino tem-se revelado um traquina, de se lhe tirar o chapéu.
Nós as 3 raparigas (maria-rapaz, como uma vez apelidaste, e foi uma honra, pois mostrávamos nossa garra de aventura, mas o contrário rapaz-maria ficaria mal) mais meus 7 irmãos rapazes tínhamos muito que contar...
Claro, que dessas maldadezinhas com os bichanos não éramos muito voltados a isso, nem para os castigar, pois vivíamos com eles de tal modo ligados que respeitávamos os acidentes que se davam entre eles não por maldade, mas por instinto (mesmo que nos fizessem lavar em lágrimas desgostosos) e só cobra é era indesejada e nos aterrorizava.
Pois vou-te dizer que a brincadeira foi engraçada e com muita imaginação, pois na realidade não feriu ninguém só os puseram a patinha, mesmo que deteste ratos e goste muito de gatos.
Um beijão
Isabel

terça-feira, novembro 14, 2006 5:24:00 da tarde  
Blogger Manuel Palhares said...

Costinha, meu amigo,

Ah!Ah!Ah! É verdade!
Com o Roca, falo por vezes pelo Skype.
Um abraço,

Manel

***********************************

Isabelita, minha amiga,

Mas eu era terrivelmente traquina naquela idade! Já não há nada a fazer e espero poder contar mais umas patifarias que fiz.
Ainda bem que foste maria-rapaz e pudeste gozar e brincar com os teus bichinos. Os nossos filhos e netos, já só conhecem os bichos pela TV.
Um beijinho para ti,

Manel

quarta-feira, novembro 15, 2006 6:40:00 da tarde  
Blogger Isabel Ribeiro said...

Manel
Para meu filho tomar contacto com a natureza levávamos muitas vezes para aldeia, casa da minha Avó, para lá de Amarante na encosta do Tâmega. Mas como complicou por vivências e modos de ver a vida diferente, começamos a ir para Ponte da Barca "CASAS RURAIS" mesmo dentro de uma Quinta que era duma colega de Escola, onde trabalhava na altura.
Assim o ele lidou com o lavrador que a explorava lado a lado, recolhendo erva para o gado e andando com ele com as vacas e os bois ia ao moinho...
Que mais gostava era das rãs e dos sapos que com muito dificuldade tinha que admitir não levá-los para dentro de casa.
Passeávamos, íamos ver as estrelas e a lua ao lado do rio (levando em punho sua lanterna para a aventura), subíamos a montanhas para lá de Monção ao até no Marvão criando assim laços que o ligaram um nada à natureza que como menino da cidade não tinha.
Como foi saudável aquela liberdade, que tivemos em que os cuidados era mais a precaução para acidentes, sem medo dos raptos ou de maus tratos nos fazerem no geral (havia casos esporádicos) e agora são bandos organizados pelo todo mundo chamado civilizado ou que pensávamos civilizar.
Conta lá tuas malandrices, que em jovens é saudável, pois quando a altura passa começam a ser mentes destorcidas, porque ficaram atrofiadas.
Isso mantém um crescimento saudável, os clubes, que formam com colegas, os jogos, os quartinhos só deles. Os segredos. Há dias tive cá em casa um grupinho de colegas dele, desde os 3 anos até ao nono ano e mostrei-lhes fotografias e recordei com eles o nome dos clubes que tinham formado e depois lá saltava tudo foi deveras divertido.
Com gatos, lá, não lidei muito, são felinos, mas siameses podem ser mesmo maus. Gostam de mim, porque sou afável e não lhes devo transmitir ameaça.
Dei-me mais com cães, galinhas patos, macacos, cabritos, porcos chinas (que acabaram com o aparecimento de um cão polícia, que nos deram e era para nós muito especial, que para brincar abocanhava-os e deu cabo deles um a um), porcos... e adoptávamos tudo que aparecia: cágados, lagartixas e outros bichos do mato e no quintal, quando chovia, eram as rãs ás centenas com quem brincávamos e quando ao saltar de pedra em pedra para ir ao fundo do quintal lá se ia uma, chorávamos como desalmados.
Dentro de casa tratávamos bem, das osgas (bichinho feio) mais muito útil na caça ás moscas e mosquitos.
Um beijinho Manel
Isabel

quinta-feira, novembro 16, 2006 2:11:00 da tarde  
Blogger Manuel Palhares said...

Isabel,

Como é bom ler-te e poder recordar contigo a meninice do teu filho cá em Portugal e a tua lá, em Moçambique.
Que saudades de todos esses bichos de que falas e que fazem parte do nosso imaginário...
Ainda hoje gosto de lagartixas e de osgas e que úteis que eram.
Um muito bom fim-de-semana para ti e para o Jerónimo.
Um beijinho,

Manel

sexta-feira, novembro 17, 2006 4:19:00 da tarde  
Blogger Era uma vez um Girassol said...

Palhares, no girassol tens champanhe, bolo, ou seja, Festa!
Conto 1 ano e festejo o acontecimento...
Bjs

terça-feira, novembro 28, 2006 10:30:00 da tarde  
Blogger Isabel Ribeiro said...

MANEL
PASSEI POR PARA VISITAR-TE.
OUVIR MÚSICA
VER SE HAVIA NOVIDADES
APETECEU-ME AQUI TE DEIXAR
BJS
ISABEL


O navio de espelhos

O navio de espelhos
não navega, cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

(Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele)

Os armadores não amam
a sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga

(O seu porão traz nada
nada leva à partida)

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta

(E no mastro espelhado
uma espécie de porta)

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto

(A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto)

Quando um se revolta
há dez mil insurrectos

(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)

E quando um deles ala
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo


© 1965, Mário Cesariny
From: A Cidade Queimada
Publisher: Assírio & Alvim, Lisbon, 2000
ISBN: 972-37-0030-1

domingo, dezembro 03, 2006 6:09:00 da tarde  
Blogger Manuel Palhares said...

Olá ABzita!
Um ano,já?! É obra! Parabéns!
Se há festa, tenho que lá ir. Eu adoro festas!
Obrigado pela visita.
Um beijinho e até ao teu Girassol,

Manel

***********************************

Isabel,

Olá!
Obrigado pela visita e pelo lindo poema do Mário Cesariny.Com ele, fazes aqui uma linda homenagem ao principal representante do surrealismo português,agora que nos deixou.
E, já agora, deixo-te com isto:

poema

"Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura"

Um beijinho,

Manel

segunda-feira, dezembro 04, 2006 5:58:00 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Ola Maneliiii

Ja tinha lido, mas com a preguiça e akelas minhas ferias, nao deu para escrever antes....
Com ke entao, o menino tambem tinha as suas creatividades e recreações...hum....malvadas! E eu a pensar ke ele era um menino exemplar! Olha a SPAnimais!Mas entao isso faz-se a bichihos tao queridos?
Olha nessa altura, ja fazias maldades a melgas e moskitas, já?
Heheheheh
Beijao, amigo
S.A(B)

quarta-feira, dezembro 13, 2006 5:32:00 da tarde  
Blogger Manuel Palhares said...

Bianita,

Ah!Ah!Ah!

Naquela altura eu ainda não as "ia vê-las", de modo que tinha que me entreter com alguma coisa, não é?! Só anos mais tarde é que as melgas me começaram a cantar coisas lindas.
Um beijinho para ti,

Manel

quinta-feira, dezembro 14, 2006 1:28:00 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home

/body>